sábado, 3 de janeiro de 2009

A Academia e a poesia de Max Martins

Foto: Paula Sampaio

A Academia dos Poetas Paraenses pretende reunir em cacho os grandes poetas paraenses. O objetivo é divulgar suas obras na qual possamos beber das gemas filosóficas de cada um e compreender a genialidade poética de todos.

As publicações de cada autor ocorrerão mensalmente. Aqui serão mostrados poetas da antiga e nova geração como por exemplo: Max Martins, Age de Carvalho, Adalcinda Camarão, Benedicto Monteiro, Rui Barata, Antônio Tavernard, Bruno de Meneses, JJ Paes Loureiro, Emir Bemerguy, Olga Savary, Carlos Correia Santos, José Ildone, Antônio Juraci Siqueira, Salomão Larêdo, Vicente Cecim, Eneida de Moraes, Inglês de Souza, Rodrigues Pinagé, Júlio César Ribeiro de Sousa - era tido como o príncipe dos poetas paraenses, Francisco Paulo Mendes, Cauby Cruz, José Paulo Paes, Paulo Plínio Abreu, Roberto Carvalho de Faro, Hilmo Moreira, Camilo Delduque, Alfredo Garcia, Alberto Cohen, Alonso Rocha - príncipe dos poetas paraenses, Ronaldo Franco, José Maria de Vilar Ferreira, José Maria Leal Paes, Jorge Andrade, Vicente Salles, Marcos Quinan, Jorge Campos, e tantos outros.

Na estréia da Academia nada mais justo do que iniciar as postagens mostrando os poemas de Max Martins.

"A minha poesia tem uma relação muito veemente com a vida.
É poesia-vida, vidapoesia".
Max Martins.

Max Martins nasceu em Santa Maria de Belém do Grão Pará em 1926. A partir de 1934, fez estudos nas áreas de Poesia, Artes, Literatura e Filosofia, nunca abandonando a formação autodidata.

Os primeiras textos de Max foram publicadas por Haroldo Maranhão em um jornal escolar denominado “O Colegial”. Foi a partir desse jornal de alunos, que floresceu uma amizade entre Max, Haroldo e Benedito Nunes que dura mais de 50 anos. No período de 1945 a 1951, eles participaram juntos do suplemento literário “Folha do Norte”, de grande importância na época.

Ao lado de Benedito Nunes, Francisco Paulo Mendes, Rui Barata, Mário Faustino, Paulo Plínio de Abreu, Haroldo Maranhão, viu chegar a modernidade na poesia brasileira, da qual se tornou um dos poetas mais expressivos. Sua obra está traduzida para o alemão, inglês e francês.

Hoje, aos 82 anos, Max é o maior poeta paraense em atividade. Sua poesia é trangressão, é ruptura, é um fora na mesmice, é espelho para os novos poetas.

Livros publicados: O Estranho,1952; Anti-Retrato, 1960 — ambos de poesia. Tanto o primeiro como o segundo livro receberam respectivamente os prêmios da Academia Paraense de Letras e Secretaria de Educação do Estado do Pará; H'Era, 1971; O Ovo Filosófico, 1976; O Risco Subscrito, 1980; A Fala entre Parênteses, 1982 — em parceria com o poeta Age de Carvalho; Caminho de Marahu, 1983; 60/35, 1985; Não para Consolar — Poesia Completa — Prémio Olavo Bilac da ABL, dividido com o poeta António Carlos Osório, 1992; Para Ter Onde Ir, 1992; Colmando a Lacuna — Poemas Reunidos, 1952-2001.

Max Martins é dos mais instigantes, vale ouvir, vale a leitura, vale a reflexão.




A CABANA

É preciso dizer-lhe que tua casa é segura
Que há força interior nas vigas do telhado
E que atravessarás o pântano penetrante e etéreo
E que tens uma esteira
E que tua casa não é lugar de ficar
mas de ter de onde se ir.


O CALDEIRÃO

Aos sessenta anos-sonhos de tua vida (portas
que se abrem e fecham
fecham e abrem
carcomidas)

Ferve

a gordura e as unhas das palavras
seu licor umbroso, teus remorsos-pêlos
Ferve
e entorna o caldo, quebra o caldeirão
e enterra
teu faisão de jade do futuro
teu mavioso osso do passado

Agora que a madeira e o fogo de novo se combinam
e o inimigo n. 1 já não te enxerga

ou vai embora
varre tua esperança tíbia

o tigre da Coréia da parede

É lícito tomar agora a concubina
E despentear na cama a lua escura, o ideograma


A FERA

Das cavernas do sono das palavras, dentre
os lábios confortáveis de um poema lido
e já sabido
voltas
para ela - para a terra
maleável e amante. Dela
de novo te aproximas
e de novo a enlaças firme sobre o lago
do diálogo, moldas
novo destino
Firme penetra e cresce a aproximação conjunta
E ocupa um centro: A morte, a fera
da vida
te lambendo


MARAHU: Primeira Relação

2 formigas - operárias
ápteras
ou novatas, não
de fogo mas
noturnas, doces
1 grilo
(depois aprisionado
pela aranha, morto
ao amanhecer)
O canto dum galo
e outro galo
A saracura. A tarde
2 gaviões molhados
encolhidos no pau da árvore
pensos
Garças
sobre as pedras
negras da praia
Os urubus
o boto morto
um cão medroso, sapos
sapos
sapos
1 goteira
sapos
chuva
o sol
vindo do mato
às 7
da manhã
A noite
a escuridão o vento as velas
de Lao-tsé
Thoreau
e o meu cajado de bambu rachado
o chão
folhas úmidas


AMARGO

Há um mar, o dos velames,
das praias ardendo em ouro.

Há outro mar, o mar noturno,
o das marés com a lua
a boiar no fundo
o mênstruo da madrugada.

E afinal o outro, o do amor amargo,
meu mar particular, o mais profundo,
com recifes sangrando, um mar sedento
e apunhalado.


RASGAS A FRIA NOITE COMO UM DARDO

Rasgas a fria noite como um dardo
em fogo
e logo
a flâmula como um pêndulo
desce sobre o peito
donde nasce um sol obscuro e virgem.
Através dos ramos levo-me – levas-me –
puro e simples para os ventos
mesmo que triste, inconsútil e leve.
Mas, como se de pedra fosse o ilimitado
de coral ou ilha
o gesto falha inútil
e impetuosamente caímos sobre o limo
deflorados e neutros para o dia.


Referências:
  • Martins, Max. Poemas reunidos: 1992-2001. Belém: EDUFPA, 2001.
  • Pereira, João Carlos. Autores paraenses: as leituras do vestibular. Belém: Cejup, 1996.
  • Wiki: Max Martins, 2009.

6 comentários:

  1. Aplaudo a iniciativa. Tenho a felicidade de ter conhecido pessoalmente alguns dos nomes citados e os escritos de mais alguns. O Max e seu Ovo Filosófico foi uma abertura das portas da poesia paraense por mim. Até pouco tempo o tinha em minha estante.

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  2. É tão bom ter notícias da terrinha, ler grandes nomes e ver que pessoas como você acreditam no poder da palavra como eu acredito. Sou paraense e me orgulho disso...deixo meu abraço e o convite para a visita aos meus blogs e quem sabe, a integração da poesia paraense aqui no circuito carioca, onde transito sempre mencionando minha bela cidade.

    Beijos de brisa

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  3. Este comentário foi removido pelo autor.

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  4. OLá!
    Sou neta do escritor e poeta paraibano Newton Pessoa de Oliveira, que viveu e
    escreveu aí em Belém por 40 anos. Dentre seus livros mais importantes estão: Gotas Voláteis, Flores e Cardos e Fonética e Outras Crônicas. Vcs tem algum registro dele aí? Como ele se casou e cosntituiu outra família, após a morte dele perddemos o contato. Ele faleceu na década de 90. Se tiverem aí algum registro dele me avisem por fvr.
    Grata,
    Marcelina Oliveira
    ps: Sou paraense e também spu poeta. Meu blog é: http://livrosdeladyli.blogspot.com/2009/04/hoje-me-olho-por-dentro-com-olhos-de.html

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  5. Conheci seu pai, Marcelina Oliveira! Um homem bom! Estive várias vezes na casa dele na Rua da Agulha em Icoaracy!

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